Entre perguntas sobre o futuro da universidade, os desafios da pedagogia contemporânea e a necessidade de recentrar a educação nas pessoas, o encontro RENOVAR*TE reuniu diferentes vozes num exercício de reflexão e diálogo em torno da missão educativa inaciana.
O debate decorreu no dia 20 de maio, na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa — Campus de Braga, e permitiu fazer emergir ideias, inquietações e perspetivas que ajudam a pensar o papel da universidade num tempo de rápidas transformações sociais.
Entre as ideias mais marcantes, destacou-se a reafirmação da identidade da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais enquanto instituição de inspiração inaciana, bem como a centralidade do discernimento como prática essencial para a vida pessoal, comunitária e educativa.
Ficou clara a convicção de que renovar não significa romper com a tradição, mas antes acolhê-la, preservar os seus elementos fundamentais e reinterpretá-la à luz dos desafios contemporâneos. O compromisso com a formação integral da pessoa, a promoção da justiça e a procura do bem comum permanece, assim, no centro da missão educativa.
Ao mesmo tempo, o discernimento surgiu como uma dimensão essencial, não apenas para a compreensão da vida interior, mas também como instrumento para decisões mais conscientes, livres e orientadas para aquilo que conduz ao bem mais profundo.
Quando a academia encontra a humanidade
Ana Paula Pinto e Susana Vilas-Boas explicam que, no centro das reflexões, esteve o desafio lançado pelo Padre Geral da Companhia de Jesus, Arturo Sosa, que apelou às universidades jesuítas para serem testemunhos vivos de esperança: uma esperança enraizada na identidade espiritual, comprometida com a justiça, solidária com os excluídos, crítica perante as pressões e modas do tempo, mas sempre aberta ao diálogo e profundamente dedicada à transformação social e ecológica do mundo.
Segundo as intervenientes, ao longo do encontro tornou-se claro que a pedagogia inaciana continua a oferecer uma visão atual e necessária da educação. Trata-se de uma pedagogia que assume, sem receios, a sua identidade cristã, humanista e integral, colocando a pessoa no centro do processo educativo.
Historicamente, este modo de olhar a educação ajudou a recentrar a aprendizagem no aluno, a valorizar a missão docente e a formar pessoas capazes de pensar livremente, unindo competência, pensamento crítico e humanidade.
Pedagogia da esperança: humanismo e identidade
José Manuel M. Lopes e Ângela Azevedo sublinham que, num tempo de rápidas transformações sociais, marcado pela omnipresença da tecnologia e pela crescente complexidade das relações humanas, se torna cada vez mais necessário formar pessoas conscientes, competentes, compassivas e comprometidas com a transformação do mundo.
É precisamente neste horizonte que a universidade jesuíta se afirma como diferenciadora: através de uma visão humanista que coloca a pessoa no centro do processo educativo e entende o estudante como sujeito ativo, crítico e participante na construção do conhecimento.
Ao longo do encontro, ficou evidente a importância de assumir a identidade da pedagogia inaciana sem receios nem ambiguidades. Mais do que transmissores de conhecimento, os educadores são chamados a ser agentes de transformação humana, social e cultural.
Inspirados pelos princípios da Pedagogia Inaciana, tornam-se verdadeiros “semeadores de esperança”, promovendo uma educação assente no pensamento crítico, na criatividade, no trabalho colaborativo e numa consciência ética orientada para o serviço dos mais vulneráveis.
Com a sensação de que muito mais haveria ainda para partilhar, discutir e aprofundar, a coordenadora do Grupo RENOVAR*TE, Ângela Azevedo, confirma que a educação continua a ser, antes de tudo, um caminho de encontro, discernimento e esperança — um espaço onde a humanidade permanece mais importante do que o formalismo e onde educar continua a significar transformar vidas.
Universidade, esperança e missão educativa
Catarina Nogueira, finalista da Licenciatura em Ciências da Comunicação e coordenadora do Clube de Leitura Liberdade, afirma que uma das ideias centrais que emergiu do encontro foi a de que a Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da UCP Braga continua a encontrar a sua maior força nas pessoas que a habitam e constroem diariamente.
As várias perspetivas partilhadas permitiram destacar um desafio cada vez mais evidente: pensar uma pedagogia inaciana para o nosso tempo exige mais do que respostas prontas ou soluções imediatas. Exige capacidade de escuta, discernimento, proximidade e a coragem de imaginar novas formas de presença universitária, capazes de responder às exigências e mudanças do mundo contemporâneo.
Para a estudante, as intervenções contribuíram para tornar mais visível a necessidade de repensar a missão educativa à luz dos desafios atuais, reforçando a ideia de que a universidade continua a ser um espaço privilegiado para formar pessoas e construir esperança.
Valores universais e simples de entender
José Vale Machado, um dos participantes na mesa de debate, considera que pensar a vocação do ensino superior jesuíta é uma obrigação de todos os que nele reconhecem o seu valor.
Segundo o participante, falamos de valores universais e simples de entender: abertura, liberdade e esperança. Abertura ao mundo, liberdade de pensamento e esperança no futuro são fundamentos para a estruturação de uma sociedade rica, plural e inclusiva, atenta ao outro, em particular àquele que vive em mundos marginais.
Trata-se de uma sociedade rica pela discussão e pelo debate aberto, plural pela aceitação de diferentes mundividências e inclusiva pelo acolhimento do estranho. Num mundo onde tudo parece apontar para o império da antipatia, a educação de fundamento jesuíta afirma-se como um lugar, um espaço e uma realidade geradora de empatia.
A iniciativa contou ainda com as intervenções de Luís da Silva Pereira e Eugénio Oliveira.