Da Praça da Faculdade de Filosofia – Braga à Rue de Sèvres – Paris.
Tiago Azevedo Ramanho
Doutorando em Filosofia na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa - Braga
O tempo actual suscita grandes hesitações quanto ao melhor modo de condução do ensino. Tão diversificado é o conjunto de meios colocados ao dispor da aprendizagem que nem sempre é fácil determinar a justa medida do seu emprego. As perguntas vêm-se renovando: deve abdicar-se da escrita a favor da exclusiva digitação por meios informáticos? Deve substituir-se o objecto livro por e-books? Há-de passar-se do ensino presencial para o online? Abdicaremos de professores em favor de «tutores» de inteligência artificial? São questões de método que acrescem a outras de fundo, já tradicionais, sempre recorrentes: deve o ensino ter por base aquelas disciplinas que auxiliam na interrogação sobre o sentido, o propósito e a vocação da existência humana ou, pelo contrário, deve tudo apostar-se no ensino precoce da «programação», idealmente desde o pré-escolar? Deve interrogar-se o para quê da técnica, ou apenas multiplicar o domínio de técnicas? Que não há um sentido linear na história, e que a resposta a dar a estas questões não é de sinal único, é visível na circunstância de à resposta positiva a algumas destas questões haverem sucedido outras respostas mais matizadas, já ponderadas pela dúvida.
Recentemente, um exemplo de um oportuno discernimento quanto ao adequado emprego destes novos meios tecnológicos ao serviço de um ensino preocupado com os «fundamentais» para o devir humano foi dado pela Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais (FFCS) da Universidade Católica Portuguesa (Centro Regional de Braga). Como instituição confiada à Companhia de Jesus, a FFCS integra a Kircher Network, rede de faculdades e universidades jesuítas situadas na Europa e no Oriente Próximo (inclui a Université Saint-Joseph de Beirute, Líbano) e que toma o seu nome do erudito jesuíta P. Athanasius Kircher.
Ora, aproveitando-se as sinergias resultantes de uma tal rede, colocou-se a frequência de alguns cursos online oferecidos por instituições que a integram ao dispor dos estudantes que frequentam as demais. No catálogo de cursos oferecidos, destacam-se, muito naturalmente, as propostas inscritas nos campos de estudos em que a Companhia de Jesus mais se distingue: a Filosofia e a Teologia; as articulações entre estes domínios; e o diálogo com grandes questões do mundo contemporâneo. Prevalecem os cursos oferecidos em língua inglesa (mesmo quando disponibilizados por instituições de países não anglófonos) e francesa; recentemente, também em língua espanhola. O catálogo pode ser encontrado no sítio electrónico da rede (kirchernetwork.org).
Cada interessado seguiu, naturalmente, o critério da sua frequência, para o que pôde avaliar a adequação do elenco de cursos propostos aos respectivos objectos de interesse, estudo e investigação. Também eu o fiz. No meu caso, a opção levou-me à frequência de um curso proporcionado pela instituição jesuíta sediada na cidade de Paris, as Facultés Loyola (tratou-se do curso Langage et vérité, «Linguagem e verdade», por Camille de Villeneuve). Tão distante em termos físicos, subitamente esfumaram-se, graças aos modernos meios de comunicação, as distâncias entre a Praça da Faculdade de Filosofia, Braga, onde sita a FFCS, e a Rue de Sèvres, Paris, onde se encontra aquela outra instituição.
Seguiu o curso um modelo formativo muito ajustado ao meio de comunicação em que assentava: aos participantes são previamente disponibilizados elementos de trabalho — lições pré-gravadas, em vídeos breves, com transcrição escrita, assim como recomendações bibliográficas — que são trabalhados individualmente mediante a feitura de reflexões regulares sob forma escrita, que serão objecto de apreciação e comentário, e através de debate numa sessão semanal síncrona, na qual é dada a oportunidade de diálogo a partir da experiência de reflexão e leitura realizada ao longo da semana anterior. Conjugação, enfim, dos verbos fundamentais para as humanidades: ouvir, ler, escrever, dialogar.
Eis um excelente exemplo de uma utilização inteligente da tecnologia, ao ser colocada ao serviço do ser humano (e não o inverso): a tecnologia é aqui empregue para proporcionar uma ocasião de encontro efectivo, em que se é tratado pelo nome próprio — o que, aliás, nem sempre ocorre sequer no ensino presencial de massas —, sem se cair na solução fácil de apresentar como «formação à distância» a simples exposição de cada um ao ruidoso silêncio dos tumultuosos espaços digitais, sem qualquer palavra que ampare, corrija ou exorte. Ligação à distância, sim, mas com relações humanas efectivas.
Deve ser saudada esta recente iniciativa. Deve ser também agradecida. Tempos de crise são, bem se sabe, tempos para discernimento, tempos em que se pede que se determine, com clareza, o que mudar, o que transformar, o que conservar, o que renovar. Vemos aqui um modelar exercício de discernimento a respeito de quais são as próprias forças — de qual é a identidade própria — e de colocação a render dos próprios talentos.
O conhecimento da própria identidade: uma rede educativa multisecular, poliglótica, inscrita em diferentes lugares. É uma rede educativa com traços característicos claramente distintos, traços identitários que, quando assumidos, e não diluídos, permitem uma oferta que outras instituições, com diferente missão e estrutura, não estão vocacionadas para dar. A colocação a render dos próprios talentos: facultar, desde cada um dos nós que estruturam semelhante rede — quer dizer, de cada uma das instituições que a integram —, o acesso ao seu conjunto — quer dizer, o acesso às demais —, de tal forma que aquele que entra numa instituição superior confiada à Companhia de Jesus nela encontra, não o fim do seu caminho, mas um meio para descobrir surpreendentes novos lugares. Assim se garantem caminhos formativos que, estando firmemente enraizados em realidades locais, constituem, contudo, sólidas plataformas de acesso ao mundo exterior.
É de desejar o bom sucesso na continuação deste programa, e que possa ele servir de estímulo para novas, e cada vez mais sólidas, formas de colaboração em rede.
Nota: "Texto redigido segundo a norma anterior ao Acordo Ortográfico de 1990"