A máquina pode gerar a surpresa, mas transformá-la em significado continua a ser uma tarefa nossa
Durante muito tempo, a ideia de que uma máquina pudesse ser criativa parecia difícil de levar a sério. No entanto, hoje qualquer pessoa pode pedir a um sistema de inteligência artificial que escreva um poema, componha uma música ou desenhe um logótipo e receber, em poucos segundos, dezenas de propostas. Por isso, já não é absurdo perguntar se uma máquina pode ser criativa. Ora, para sabermos se ela pode ser considerada criativa, primeiro temos de perceber onde procurar a criatividade. Nem entre os filósofos nem entre os investigadores em IA existe uma posição consensual. Em ambos os campos, há quem avalie a criatividade pelo resultado obtido, quem se concentre no processo que lhe deu origem e quem considere criativo o próprio sistema.
Esta distinção é importante, porque um resultado criativo não implica necessariamente que o processo que lhe deu origem também seja criativo e muito menos que o sistema possa ser considerado um “sujeito criador”. A discussão passa, contudo, frequentemente de um plano para outro. Há quem negue qualquer criatividade à IA por esta se limitar a recombinar materiais produzidos por seres humanos. Outros veem nos textos e nas imagens que produz a prova de que a própria máquina se tornou uma autora como nós. Ambas as posições chegam demasiado depressa a uma conclusão sobre o sistema. Antes disso, é necessário separar os três planos, começando pelo resultado.
A filósofa Margaret Boden defende que uma ideia criativa deve ser nova, surpreendente e valiosa. Os sistemas generativos parecem já satisfazer os dois primeiros critérios com relativa facilidade, produzem resultados cuja forma exata não foi previamente definida e alguns desses resultados têm também valor para quem os utiliza. Portanto, se avaliarmos apenas o produto final, podemos falar de um resultado criativo. Mas isso não significa ainda que o processo que o gerou seja “criativo” ou que o próprio sistema possa ser considerado um autor.
Dizer que a IA apenas recombina materiais produzidos por seres humanos não resolve, por si só, a questão. A criação humana também parte de regras, métodos e obras anteriores. Um soneto obedece a uma forma, uma fuga de Bach desenvolve-se segundo regras musicais e uma demonstração matemática segue regras formais. Como questiona Berys Gaut, a questão está em saber se o processo criador se limita a repetir padrões ou se os utiliza para abrir novas possibilidades.
Resta, por fim, o próprio sistema. Produzir um resultado criativo não basta para fazer dele um “autor criativo”. O filósofo Matthew Kieran distingue a capacidade de produzir algo novo e valioso de uma forma mais geral de criatividade. Neste sentido, criar envolve um propósito, o domínio de uma prática e a capacidade de reconhecer as razões que tornam uma escolha melhor do que outra. Um autor pode explicar o que procurava fazer, rever as suas decisões e responder pela obra. Todavia, os sistemas atuais de IA não iniciam um projeto porque algo lhes importa, eles recebem objetivos definidos e não têm, tanto quanto sabemos, uma biografia, compromissos ou uma experiência do mundo a partir da qual a criação adquira sentido. Ricardo Barroso Batista (2026) 1 É precisamente aqui que o terceiro critério de Boden (o valor) torna-se essencial para a discussão sobre a criatividade. Um sistema pode aprender padrões de preferência e estimar qual das suas respostas será mais bem recebida por determinado público. Mas prever uma reação não é o mesmo que perceber por que razão uma proposta tem valor ou por que merece ser desenvolvida. Para distinguir uma possibilidade realmente nova de uma mera repetição de um lugar-comum, é necessário conhecer a área e a tradição em que se trabalha. Um utilizador pode obter com IA um texto correto e fluente sem reconhecer que é “banal”; um utilizador experiente pode recorrer à mesma ferramenta para comparar alternativas e encontrar uma solução que ainda não tinha considerado. A IA pode deslocar o centro do trabalho criativo. Quando é possível gerar dezenas de propostas em poucos segundos, produzir “alternativas” passa a ser “fácil”. A dificuldade passa a estar na escolha e no filtro do que vale a pena conservar, desenvolver ou abandonar. A IA é uma “nova ferramenta” que pode apresentar “novas possibilidades” aos utilizadores, mas alguém terá de “saber criativamente” crivar entre elas e assumir a responsabilidade pelo que decide fazer com elas. Podemos, portanto, reconhecer criatividade em muitos resultados produzidos por IA sem necessariamente transformar o sistema numa “pessoa criativa”. A ferramenta pode ampliar a criatividade humana, mas esse contributo não basta para fazer dela uma “autora”. Importa saber quem reconhece o valor do resultado, quem decide conservá-lo e quem responde por ele. A máquina pode gerar a surpresa, mas transformá-la em significado continua a ser uma tarefa nossa.
Ricardo Barroso Batista é professor e investigador na Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa