Dia Mundial do Serviço Social: entre a fragilidade humana e a urgência de cuidar em comum

Terça-feira, Março 17, 2026 - 19:31
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Catarina VS _ opinião 2026

A esperança constrói-se com respostas concretas, redes efetivas, compromisso profissional e políticas públicas que não abandonem os mais frágeis.


Todos os anos, o Dia Mundial do Serviço Social convida-nos a refletir sobre um novo tema e desafios sociais urgentes. Mais do que uma data simbólica, é um alerta para a forma como cuidamos, ou falhamos em cuidar, enquanto sociedade.

Num tempo marcado pela guerra, pelos discursos de ódio e pela intolerância perante a diferença, esta reflexão obriga também a olhar para o nosso Portugal de contrastes: um país onde persistem desigualdades e onde demasiadas pessoas continuam a viver nas margens da vida social.

A profissão do Assistente Social faz-se de vidas concretas. É nesse contacto com a vulnerabilidade humana que se torna evidente uma verdade essencial: o sofrimento social não é uma realidade distante. Pode tocar qualquer cidadão em tantos e diferentes contextos.

Basta pensar na privação que atinge algumas crianças desde os primeiros dias de vida, quando faltam bens tão básicos como fraldas e leite. O mesmo se verifica na violência doméstica, tantas vezes silenciada, e nos comportamentos aditivos, que exigem um olhar menos moralista e mais atento ao sofrimento que lhes está associado.

Também a pobreza energética e a precariedade habitacional continuam a marcar a vida de muitas pessoas que vivem sem conforto térmico ou em casas sem condições mínimas. E o desemprego, mesmo entre pessoas qualificadas, mostra bem que a promessa da educação superior como elevador social está longe de se cumprir.

Também o racismo continua presente, inclusive em contextos onde deveria prevalecer o cuidado, como os lares de idosos. Quando se rejeita um profissional por ser migrante, por ter outra nacionalidade ou outra cor de pele, estamos perante discriminação. E esta realidade torna-se ainda mais grave quando se ignora uma evidência simples: são, muitas vezes, estes trabalhadores que garantem o funcionamento das instituições. São eles que, em muitos casos, aceitam funções exigentes e pouco valorizadas, sem as quais o cuidado diário de tantas pessoas idosas ficaria comprometido.

A tudo isto, somam-se famílias confrontadas com doenças graves, acidentes, demências e rupturas súbitas. A vulnerabilidade humana não tem uma única face, nem pertence apenas aos mais pobres.

É por isso que é profundamente redutor dizer que o Assistente Social “trabalha com os pobres”. O assistente social trabalha com a vulnerabilidade humana e intervém em diversos contextos, junto de pessoas e famílias em situação de crise ou necessidade de apoio.

O tema deste ano, “Co-construir esperança e harmonia: um apelo Harambee para unir uma sociedade dividida”, recorda-nos que ninguém responde sozinho à complexidade da vida social. A palavra Harambee, originária do Quénia, remete à união e ao esforço coletivo. É essa a ideia central do lema: agir em comunidade, com solidariedade e responsabilidade partilhada.

No Serviço Social, esta lógica traduz-se numa prática quotidiana de articulação entre profissionais, instituições e comunidades. A esperança constrói-se com respostas concretas, redes efetivas, compromisso profissional e políticas públicas que não abandonem os mais frágeis.

Co-construir esperança é, por isso, um apelo à ação conjunta. Porque se não enfrentarmos seriamente estas feridas sociais, o desfecho será previsível: uma sociedade que abandona os seus e, no fim, os acusa de terem caído.


Professora Auxiliar da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa

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