200 anos | O génio de Camilo Castelo Branco ainda nos interpela

Sexta-feira, Março 14, 2025 - 11:07
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Jornal de Notícias

Académicos e escritores louvam o “grande prosador” e “poderoso contador de histórias”, mas lamentam a visão redutora da sua obra e a escassa representação no ensino.

Apaixonado, torrencial, satírico, polemista, Camilo Castelo Branco foi, na vida como nos livros (quase) tudo e o seu contrário. Só nunca deixou de ser genial, espraiando a sua ilimitada ver veem mais de centena e meia de livros. Nas vésperas do bicentenário do seu nascimento, e no dia em que arranca um congresso internacional em sua homenagem, sucedem- se as iniciativas (ver página seguinte) que louvam, nas palavras do professor universitário Cândido Oliveira Martins “um grande prosador da língua portuguesa, poderoso contador de histórias e versátil cultor de vários géneros”.


Mas, cerimoniais laudatórios à parte, serão os livros do gigante de Seide hoje suficientemente lidos, a começar pelos próprios autores? O escritor e editor Francisco José Viegas confessa ter dúvidas: “Camilo não é importante hoje – foi sempre importante. Foi no seu tempo e continua sê-lo. Se a geração dos anos 70 e 80 (a de hoje nem sem fala) tivesse lido Camilo, não teríamos agora um romance português tão depressivo, sentimental e pequeno-burguês, tão moralista. E talvez se escrevesse bem melhor”, diz Viegas.

Muitas décadas antes de técnicas semelhantes fazerem escola, com a pretensão da (pós) modernidade, já Camilo interpelava diretamente os leitores, dava saltos temporais ou colocava os personagens logo e mação, dispensando as costumeiras apresentações. Tudo contado através do “ritmo elevado, peripécias e volte-faces inesperados como objetivo de agarrar o leitor desde a primeira página”, destaca Isabel Pires de Lima, professora emérita da Universidade do Porto e que preside à Fundação de Serralves.

Por isso, “quase tudo foi feito por Camilo. Ele inventou o romance como grande género”, sustenta o autor de “A luz de Pequim”, que elege “A brasileira de Prazins” como “um desses livros que tem quase tudo para sobreviver nas  mãos de um escritor convencido de que é ‘moderno’”.

MAIS ESTUDADO NO BRASIL

Polémico e desassombrado no seu tempo – foram incontáveis os despiques, físicos e verbais, em que se viu envolvido ao longo da vida –, Camilo é hoje vítima, não dos seus atos controversos, mas de estereótipos vários, que o associam a um escritor provinciano, confinado à narrativa passional e de mundividência conservadora.

O lamento é de Cândido Oliveira Martins, crítico da escassa investigação e ensaística camiliana produzida atualmente em Portugal. Um cenário bem diferente do que se passa no Brasil, onde “é mais fácil encontrar, em boas universidades, jovens da graduação, sobretudo da pós-graduação, bem interessados em ler Camilo e em produzir investigação sobre o escritor, tal como colegas docentes e investigadores bem produtivos neste campo”.

Não é apenas no campo universitário que a atenção dada à obra de Camilo Castelo Branco fica aquém do desejável. O professor associado da Universidade Católica de Braga questiona a escolha de “Amor de perdição” como obra de entrada dos jovens do secundário no universo camiliano, defendendo que “o Camilo da narrativa humorística e satírica ganharia mais leitores jovens do que o escritor da narrativa passional, mais exigente para ser trabalhada em sala de aula”, sugerindo “uma
das breves e notáveis” “Novelas do Minho” como alternativa.