As parcerias entre entidades culturais e sociais «são fundamentais e determinantes» para trabalhar a inclusão e o acesso à cultura de públicos vulneráveis.
Esta é uma das principais conclusões do projeto “ISA Culture: Intellectually and Sociallly Accessible – On the way to equality: culture as a tool for social inclusion and labour integration”, que foi desenvolvido nos último dois anos pela Fundação Bracara Augusta em parceria com a Universidade Católica de Braga, a CERCI Braga, a Universidade de Burgos (Espanha) e a Associação RISA na Eslovênia.
«O fórum de discussão que se criou entre aquilo que são as entidades sociais e culturais é determinante e deve ser estimulado no âmbito de políticas culturais e políticas de acessibilidade à cultura. Mais do que investimento importa um alinhamento institucional», disse à margem da sessão Fátima Pereira, coordenadora deste projeto internacional, enquanto diretora, à época, da Fundação Bracara Augusta.
A importância da linguagem acessível, especialmente no contexto cultural e patrimonial, foi outro dos sublinhados deste projeto, em que a empregabilidade foi apontada como o maior desafio.
«A ideia de que um discurso complexo, na área do património e na cultura, agrega valor é errada. Na verdade, estamos a fazer com que o discurso não chegue a muitos públicos», disse a coordenadora, acrescentando que este projeto permitiu dar «saltos gigantescos» na «desconstrução de guias museológicos e de acesso à cultura a nível da linguagem».
Graças a este projeto, financiado pelo programa Erasmus +, alguns jovens com deficiência conseguiram ser guias em espaços culturais como o Theatro Circo e o Museu dos Biscainhos.
Outro eixo fundamental do projeto, apontou, teve a ver com a educação para o património, a partir das escolas e de jogos.
«Através da educação patrimonial e da desconstrução de conceitos complexos, conseguimos transformar a cultura em algo mais acessível e partilhável, especialmente no contexto escolar», explicou.
Em termos de números, este projeto, a nível internacional, capacitou 38 jovens através de um processo de educação não formal, com 36 horas de formação em cada país, seguidas de aulas práticas em espaços museológicos.
No total, o projeto envolveu 162 horas de capacitação teórica e prática e resultou na implementação de seis projetos piloto.
Um desse projetos, foi o “Empurrão Cultural”, uma iniciativa que aproximou novos públicos dos espaços museológicos através da colaboração com empresas.
Esta estratégia permitiu que os participantes visitassem museus sendo os custos do bilhete e da visita assumidos por empresas, removendo barreiras à participação cultural de alguns públicos.
Ao longo do projeto, 859 pessoas estiveram diretamente envolvidas nas dinâmicas dos projetos piloto, como o “Empurrão Cultural”, o “Jogo Braguês” e outras iniciativas culturais.
O trabalho contou com a participação de 24 investigadores e deu origem a sete publicações ou comunicações científicas, além de mais de 50 parcerias sociais e culturais.
A Católica Braga, que trabalhou os inquéritos, chegou à conclusão de que 70 por cento das instituições sondadas em Portugal e Espanha «ainda não conseguem garantir um acesso regular à cultura». Ainda que cerca de 60 por cento incluam a acessibilidade na sua missão.
«A inclusão de pessoas e grupos vulneráveis é bem vista, mas ainda é pouco comum», foi referido.
Além do Museu dos Biscainhos e do Museu D. Diogo de Sousa, colaboraram neste projeto o Palácio do Raio e a zet gallery. O projeto contou também com a colaboração da Câmara de Braga e dos Museus e Monumentos de Portugal.
O presidente da Fundação Bracara Augusta, Miguel Bandeira, sublinhou a importância de tornar a cultura acessível a todos os estratos sociais num sociedade cada vez mais cosmopololita.
«A cultura não é apenas para uma elite, para grupos instruídos, deve ser uma fonte de bem-estar e conhecimento para todos», afirmou.
Vera Vaz, presidente da CERCI Braga, deu nota que o projeto também se centrou na empregabilidade, criando oportunidades para pessoas em risco de exclusão social, como as que têm deficiência intelectual.
«A ideia surgiu da necessidade de envolver o público vulnerável, não só com deficiência intelectual, mas também migrantes, minorias étnicas e jovens universitários», afirmou. No âmbito deste projeto, um dos jovens da CERCI Braga foi integrado como guia cultural acessível através de uma bolsa de empresários.
Com o apoio de diversas entidades públicas e privadas, o projeto tem agora planos de expansão, prevendo a continuidade das iniciativas e o alargamento da sua abrangência a novos públicos.