Curso de Serviço Social da Católica qualifica resposta às crises - Entrevista a Daniela Monteiro

Tuesday, March 16, 2021 - 00:00
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Diário do Minho

Professora Daniela Monteiro, coordenadora do curso de licenciatura em Serviço Social da Faculdade de Filosofia e Ciências Sociais da Universidade Católica Portuguesa - Braga O Curso de Serviço Social do Centro Regional de Braga da Universidade Católica Portuguesa faz hoje 20 anos.

Em entrevista ao Diário do Minho, a coordenadora da Licenciatura, Daniela Monteiro, destaca o contributo do curso para a qualificação e inovação das respostas sociais em tempos de crise.

Joaquim Martins Fernandes DIÁRIO DO MINHO (DM) , A Licenciatura em Serviço Social foi criada há 20 anos, numa altura em que Portugal vivia uma forte crise. Desde então, o país passou pela crise do “subprime” e enfrenta agora a crise causada pela pandemia. Foi uma antecipação do futuro, a criação do curso? DANIELA MONTEIRO SILVA (DMS) , A Licenciatura veio colmatar uma lacuna que existia em Portugal na formação de Assistentes Sociais. Digo isto, porque até à data de criação do mesmo existiam, apenas, as chamadas escolas históricas de Serviço Social, em Lisboa, Coimbra e Porto. A que se juntou a Licenciatura em Serviço Social da Universidade Católica Portuguesa em Lisboa, criada em 1996, e que representou um contributo estruturante para a formação nesta área, por lhe dar enquadramento universitário. Seguindo esse compromisso, a Católica criou o curso em Braga, no ano letivo 2000/2001.

DM , Por necessidades específicas? DMS , Eram necessários mais Assistentes Sociais em Portugal para responder, não diria só à crise vivida na altura, mas ao incremento e ao investimento nas políticas sociais em Portugal, com o aumento de medidas de apoio às pessoas em situação de pobreza e exclusão social, bem como, à necessidade que as instituições sociais tinham de assistentes sociais, uma vez que estavam a expandir as suas respostas na área do envelhecimento e no âmbito dos problemas sociais emergentes. O nosso curso também contribuiu para a qualificação dos recursos humanos de muitas destas instituições e continua a contribuir. Mas, é sempre uma profissão de futuro, numa sociedade cujas crises se multiplicam, sejam financeiras, económicas, políticas.

DM , As comemorações do vigésimo aniversário da Licenciatura estão a privilegiar as temáticas dos sem-abrigo, da autoestima e da importância do Serviço Social na área forense. Por algum motivo em particular? DMS , Estamos a comemorar este ano com diversas temáticas sociais que são do interesse dos assistentes sociais e que representam áreas de intervenção. Abrimos com o tema das pessoas em situação de sem-abrigo, porque nos pareceu importante dar destaque a um dos grupos mais marginalizados e invisíveis da sociedade. Para os assistentes sociais é fundamental dar voz a todos aqueles que estão em situação de vulnerabilidade.

DM , Ao todo são 21 iniciativas consideradas «simbólicas». Estamos a falar exatamente de quê? DMS , Ao se tratar de um curso tão multifacetado e presente nas mais diversas áreas, queríamos trazer essa mesma riqueza para o ano comemorativo dos 20 anos da Licenciatura em Serviço Social que, sendo comemorado no ano letivo 2020/2021, aliou a simbologia numérica dos 20 aos 21. Mas, o sentido da nossa existência é o bem-estar das pessoas e da sociedade. Portanto, a grande maioria das iniciativas serão abertas, todos podem participar. Obviamente voltadas, em primeira análise, para estudantes e profissionais, mas, também, para a comunidade que se queira juntar a nós. Vamos debater, com a presença de convidados, os mais variados temas que interessam a todos. É muito importante que todas as pessoas se envolvam nos temas sociais, que se estimule a cultura de participação, de cidadania, solidariedade e humanismo. E como grande parte dos eventos irá decorrer online facilita, neste período, o acesso a iniciativas deste género. Nas iniciativas que já decorreram tivemos pessoas de todo o país. Quem quiser assistir, será muito bem-vindo. Pode consultar as iniciativas através de uma pesquisa sobre eventos da Universidade Católica Portuguesa, ou, através do facebook e instagram da Universidade Católica Portuguesa , Centro Regional de Braga. As iniciativas não estão todas publicitadas vamos divulgando mensalmente e ao longo do corrente ano.

DM , A Universidade Católica Portuguesa sempre faz questão de vincar que os cursos que ministra visam colocar os licenciados ao serviço de uma sociedade mais justa e mais humana. Essa vocação não é particularmente exigente para uma Licenciatura em Serviço Social? DMS , Diria que se trata de um alinhamento perfeito. Se há algo que marca a Universidade Católica Portuguesa é a procura do bem comum, de uma sociedade justa, através de um ensino de excelência, com os mais altos padrões científicos para os quais, em grande medida, contribuiu. Aliás, o reconhecimento internacional como a melhor universidade do país, por dois anos consecutivos, pelo Times Higher Education , THE, é espelho disso mesmo. Mas, quando falava em alinhamento perfeito é porque a missão do serviço social é contribuir para uma sociedade justa e inclusiva, é uma profissão que tem como princípios a justiça social e os direitos humanos, procurando responder aos problemas sociais vividos pelas pessoas, famílias, grupos e comunidades, no sentido de alcançar o bem-estar social. Estes são princípios e valores. Depois, o que fazemos é operacionalizá-los na intervenção que realizamos nas mais diversas organizações do setor público e privado.

DM , A transferência de saber científico para a sociedade é uma missão cada vez mais interiorizada pelas instituições de ensino superior. Que contributo o Curso tem dado ao setor social para a região? DMS ,O setor social é por excelência o empregador dos Assistentes Sociais. Embora o setor público, também o seja, por exemplo em hospitais, centros de saúde, segurança social ou escolas, particularmente, as TEIP, ou o setor empresarial de forma mais residual. Nos últimos anos, em paralelo com o crescimento do setor social, este tornou-se o maior empregador. E considero que temos contribuído, em grande medida, para o setor social da região, quer pelos estágios curriculares dos nossos alunos, quer pelos assistentes sociais que formamos e que são integrados como trabalhadores nestas organizações. Os nossos profissionais acrescentam valor às organizações, pelo notável trabalho que fazem. Julgo que compreender esses contributos passam por perceber como é o plano de estudos do curso. Dia Mundial do Serviço Social Entre as profissões de intervenção social o Serviço Social é a mais antiga e consolidada. Hoje, dia 16 de março, comemoramos o Dia Mundial do Serviço Social. Este dia é assinalado anualmente na terceira terça-feira do mês de março. Começou por ser assinalado em 1983, como data comemorativa do Trabalho desenvolvido pelo Serviço Social nas Nações Unidas, como forma de destacar a importância do papel da profissão nas questões humanitárias, mas é hoje comemorado de uma forma mais ampla, assinalando-se a importância do papel da profissão nas mais diversas áreas de atuação. O tema este ano é o Ubuntu, que é uma palavra africana associada à ideia de que “Eu sou porque nós somos”, é reconhecer o outro em toda a sua dignidade, é reconhecê-lo em mim. Está presente em figuras incontornáveis como Nelson Mandela e Madre Teresa de Calcutá. Contudo, gostaria de destacar o seguinte: a utilização de uma palavra africana, difundida globalmente, tem hoje um significado importante, até para não nos esquecermos que vivemos numa “Casa comum” que temos de cuidar, como nos diz o Santo Padre Francisco na Carta Encíclica Laudatu SI . Falar em Ubuntu hoje é exaltar a importância da solidariedade global. Hoje, mais do que nunca, em resultado da pandemia, percebemos que não podemos continuar a concentrar benefícios ou privilégios num dos hemisférios da terra, por exemplo, concentrando o processo de vacinação nos chamados países desenvolvidos, a vacinação tem de ser para todos. Talvez, percebamos agora, de forma muito concreta, o sentido de solidariedade e coesão social entre todos.

DM Que mais-valias os licenciados podem aportar às instituições para onde vão trabalhar? Tem sido fácil ao setor social aceitar a inovação nas respostas sociais possibilitadas pelo conhecimento académico? DMS O que sentimos, através dos estágios, é um forte acolhimento por parte das instituições aos contributos do conhecimento académico. Os Assistentes Sociais são por excelência interventores sociais, e, por esse motivo, nos 3 anos e meio de curso, a componente prática é muito valorizada, os nossos alunos começam a estagiar logo no 2º ano com um dia e meio em contexto institucional, terminando com 3 dias por semana. Praticamente estão o curso inteiro em contexto de trabalho. Desde cedo fazem essa relação entre teoria e a prática.

DM , Qual é o "feedback" das instituições? DMS , Um dos aspetos mais realçados pelos orientadores das instituições é a importância dos estágios para se manterem atualizados sobre a produção científica. Isto significa que os profissionais valorizam o espaço da academia e o conhecimento produzido. Mas, não me parece que sejam só os profissionais, também as direções das organizações estão cada vez mais empenhadas em inovar e em prestarem mais e melhores serviços, dando mais e melhores respostas às populações. Talvez a inovação seja a palavra de ordem para o crescimento e consolidação das organizações, até porque a partir desta lógica podem candidatar-se aos mais variados programas de financiamento, sejam europeus, ou nacionais, seja de iniciativa pública ou privada. Nós, procuramos criar e encontrar a simbiose necessária entre espaço da academia a comunidade.

DM , O Minho é uma região das regiões com maior capacidade de resposta social instalada do país. As valências que existem são as que a população mais precisa? DMS , O setor social cresce dando resposta às necessidades das populações. O que seria de nós sem esse setor? Às vezes nem nos apercebemos disso até precisarmos, seja de uma creche quando a família aumenta, seja de uma Estrutura Residência para Pessoas Idosas (ERPI) quando envelhecemos, ou agora, mais do que nunca, quando falamos de apoio alimentar. Muitas vezes é um trabalho invisível que tem de ser valorizado. Mas, será que existem respostas sociais suficientes?

DM , As que existem são suficientes? DMS , Nem sempre. Veja-se o exemplo das ERPI, onde se verificam listas de espera significativas. Mas, não basta criar respostas. É preciso refletir se podem ser criadas alternativas. Quando se fala em inovação, os contributos da academia passam por outros caminhos menos explorados, mais centrados em políticas de envelhecimento ativo e de apoio à manutenção (enquanto for possível) das pessoas no domicílio, falamos hoje da importância do "aging in place". Mas nada disto retira a importância ou necessidade das ERPI. Julgo que o setor social, atualmente, de forma geral, pode ser adjetivado de flexível e adaptável, com muito potencial pelo trabalho que realiza em rede, tentando fazer uma adequação constante aos problemas e necessidades sociais que se vão reconfigurando ao longo dos tempos.

DM , A Segurança Social e os municípios são quem define as políticas locais do setor social. Existe a preocupação de incorporar o conhecimento académico nas opções estratégicas? DMS ,Sim, cada vez mais. Não poderia ser diferente. Um dos ensinamentos que a pandemia veio disseminar entre nós foi que a ciência é fundamental para a tomada de decisão. Basear decisões tão sérias, seja na área da saúde, seja na área social em “achismos” é muito perigoso. São pedidos diversos estudos ou aconselhamento científico para a implementação de políticas, nomeadamente, locais.

DM , A região e o país estão a viver uma crise ainda de dimensão desconhecida. As respostas do Governo e dos Municípios estão a ser as adequadas para os mais frágeis? DMS , Observamos uma preocupação por parte das entidades públicas e de solidariedade social em adequar a prestação de cuidados sociais e de saúde aos grupos sociais que têm sido mais afetados pela pandemia. Estamos a enfrentar um novo problema, nunca antes vivenciado. E todos os dias, as instituições vão aprendendo a lidar com os problemas originados pela pandemia, adaptando as respostas sociais e os recursos a novas necessidades, como o agravamento da situação de isolamento social das pessoas idosas, o empobrecimento das famílias em risco e vulnerabilidade social ou o surgimento de uma nova classe de pessoas em situação de pobreza, de facto, os assistentes sociais lidam hoje com novos públicos, grupos de “cidadãos diferenciados” que até há bem pouco tempo não necessitavam de quaisquer apoios sociais.