Entrevista a Ida Alves e Elias J. Torres Feijó

Entrevista,realizada a dois dos oradores convidados do Colóquio Internacional Paisagem e Literatura publicada no Suplemento Cultural do Diário do Minho, na quarta-feira, dia 22 de Março.

1. Nos últimos anos, assistimos à publicação de diversos estudos teóricos e críticos sobre o vasto interdisciplinar da paisagem. Estes trabalhos partem de várias perspectivas – desde a Filosofia, da Antropologia e da Geografia até aos Estudos Literários. Como avalia a novidade destes estudos?

  Ida Alves No âmbito dos estudos teóricos com aplicação nos estudos literários, há uma produção, principalmente de origem francesa, que se debruça sobre a paisagem como experiência fundamental de visualidade e sua relação com a poesia, o pensamento-paisagem da poesia (sobretudo os estudos de Michel Collot, Université Paris 3), estabelecendo também trajetos de questionamento sobre subjetividade, palavra e conhecimento de mundo. A arte contemporânea vem questionando muito atenta e criticamente a predominância da superexposição que caracteriza inegavelmente o século XX a partir da presença cotidiana e bastante disseminada da fotografia, do cinema, da televisão, e mais recentemente da tela do computador. Imersos cada vez mais na visualidade excessiva, como questiona Virilio e Didi-Huberman, a produção artística age como frenagem da velocidade das imagens, reaproximando o fruidor do jogo de detalhes e de perspectivas que a obra de arte pode provocar. Nesse contexto, importa discutir a percepção da paisagem como percepção sobre o estar no mundo e o estar na escrita, lugares de habitação e reflexão cultural, social e estética, a partir de experiências de sujeitos individuais ou coletivos. Para isso, a interdisciplinaridade é fundamental e garante as bases conceituais necessárias para dar conta da diversidade de experiências culturais de nosso tempo.

Não se trata, porém, de afirmar a novidade desses estudos, com mera aplicação aos textos literários de esquemas e estruturas explicativas, mas da valorização dessa perspectiva crítica que problematiza a paisagem como construção cultural que desloca e confronta subjetividades, na tensão contínua entre dentro e fora, ipseidade e alteridade, corpo e natureza. Numa realidade caleidoscópica como a nossa, em que predominam as noções de fragmentação, quebra, desordem, multiplicidade, os estudos de paisagem, em diferentes trajetos, contribuem para a problematização da relação sujeito e mundo, revelando experiências de perda, estranhamento ou, por outro lado, reconhecimento e valorização de singularidades culturais num tempo de banalização, massificação e indiferenciação identitárias. Propõem também alguns deslocamentos epistemológicos e outros desdobramentos teórico-críticos. São esses deslocamentos e desdobramentos que podem constituir alguma novidade na área, de acordo, aliás, com as demandas de nossa atualidade existencial e política.

Elias J. Torres Feijó Muito positivamente. A paisagem (urbana ou rural; dificilmente podemos falar de paisagem ‘natural’, porque o ser humano com certeza teve ou tem nela algum tipo de intervenção ou influência) é um construto, individual ou coletivo, que informa sobre natureza, meio, território, espaço e os modos em que as pessoas e as comunidades funcionam neles. Há aqui um âmbito de trabalho verdadeiramente decisivo e relevante, procurando, no possível, uma resposta consiliente (unificando os conhecimentos sobre uma matéria), em que muitas disciplinas e perspetivas estão convocadas: da Biologia, o Ambientalismo e a Ecologia até à Economia, a Sociologia, a Psicologia social, o Urbanismo ou à Linguística, ao lado das já referidas, sobretudo a Antropologia. É uma viagem e um desafio fascinantes que o mundo das Ciências Humanas e Sociais deve empreender de mãos dadas com disciplinas das denominadas Ciências Básicas.

 2. As Humanidades em geral e os Estudos Literários em particular carecem hoje de perspectivas renovadoras. No seu entender, que novos caminhos críticos ou horizontes de pesquisas diferenciadas e pertinentes podem trazer os estudos sobre a paisagem?

 Ida Alves Devemos enfatizar que, no contexto dos estudos literários contemporâneos, tanto no contexto brasileiro como no português, ainda são poucos os estudos e projetos mais desenvolvidos ou contínuos que ponham em diálogo as literaturas de língua portuguesa sob a noção da paisagem, fora da abordagem tradicional do Romantismo e a valorização da natureza. Mas há ações importantes que devem ser aqui Devemos enfatizar que, no contexto dos estudos literários contemporâneos, tanto no contexto brasileiro como no português, ainda são poucos os estudos e projetos mais desenvolvidos ou contínuos que ponham em diálogo as literaturas de língua portuguesa sob a noção da paisagem, fora da abordagem tradicional do Romantismo e a valorização da natureza. Mas há ações importantes que devem ser aqui lembradas como, em Portugal, o Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental (ver https:// ielt.fcsh.unl.pt/ actividades/ 544) e, no Brasil, o site Estudos de Paisagem nas Literaturas de Língua Portuguesa, com muitas informações sobre pesquisas e caminhos críticos dos estudos sobre paisagem no campo do literário (ver http:// www.gtestudosdepaisagem. uff.br/). Portanto, Devemos enfatizar que, no contexto dos estudos literários contemporâneos, tanto no contexto brasileiro como no português, ainda são poucos os estudos e projetos mais desenvolvidos ou contínuos que ponham em diálogo as literaturas de língua portuguesa sob a noção da paisagem, fora da abordagem tradicional do Romantismo e a valorização da natureza. Mas há ações importantes que devem ser aqui lembrado, como, aqui em Portugal, o Atlas das Paisagens Literárias de Portugal Continental (ver https:/ / ielt.fcsh.unl.pt/ actividades/ 544) e, no Brasil, o site Estudos de Paisagem nas Literaturas de Língua Portuguesa, com muitas informações sobre pesquisas e caminhos críticos dos estudos sobre paisagem no campo do literário (ver http:// www.gtestudosdepaisagem.uff.br/ ). Portanto, refletem-se nesses dois grupos de investigação já estabelecidos atividades e ações de trabalho teórico-crítico-analítico bastante interessantes. Em decorrência, estamos também coordenando, no âmbito da Universidade Federal Fluminense – UFF, em parceria com o Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras, do Real Gabinete Português de Leitura (Rio de Janeiro) e outras Universidades brasileiras como UERJ e UFRJ, um projeto intitulado Paisagens Luso-Brasileiras em Movimento: Literatura, História e Turismo, com a elaboração de um portal multidisciplinar que permitirá ao seu visitante transitar entre textos do século XVI ao XXI a partir desse eixo temático tão rico em questões e perspectivas que é a paisagem, Tal projeto também foi aprovado pela Fundação Calouste Gulbenkian, em 2016, em sua chamada de Apoio a Projetos de Investigação nos Domínios da Língua e da Cultura Portuguesa, com um subsídio de comparticipação nas despesas materiais do projeto, além dos apoios pontuais das Universidades parceiras. Esse portal possibilitará a um universo ilimitado de leitores encontrar de forma ágil e lúdica incontornáveis textos literários portugueses e brasileiros (no todo ou em fragmentos selecionados) que apresentam a paisagem como estrutura de sentido, de cultura e de questionamento da diversidade de imaginário em língua portuguesa. Portanto, a contribuição deste projeto pode ser mensurada pelo muito que poderá oferecer em termos de conhecimento e acesso a textos literários dialogantes entre si a partir do eixo da paisagem, provocando leituras interdisciplinares e divulgando nacional e internacionalmente um acervo literário fundamental para compreensão das culturas de língua portuguesa. Neste primeiro ano do projeto, a ênfase do trabalho recai sobre as literaturas brasileira e portuguesa, mas na sua continuidade também se tratará das literaturas africanas de língua portuguesa, estabelecendo esse portal literário como espaço digital de encontro de culturas e de valorização de um patrimônio linguístico partilhado por mais de 250 milhões de falantes de língua portuguesa. Acreditamos que daí muitos caminhos críticos ou horizontes de pesquisa poderão se originar.

 Elias J. Torres Feijó Do meu ponto de vista, os Estudos Literários entraram, há tempos, e desde a rotura da ‘aliança’ entre o Estado e a sua projeção, sobretudo no âmbito educativo, em colapso, evidenciando pouca relevância no presente. O Estado já não necessita, como dantes, veículos de projeção identitária e de coesão social como a literatura; tem outros. E os textos literários já não são úteis como transmissores de ideias centrais para a comunidade, como o foram, com alguns âmbitos de exceção. Há vias ainda de estudo que explorar na relevância da leitura e distribuição de textos e de literatura em geral: a psicologia cognitiva o e a neurociência, na esfera da incidência na leitura de textos nas condutas, valores ou afetividades; a vinculada às práticas sociais de importância (por exemplo, o turismo); e o estudo da narrativa, em geral, como portadora de ideias, sem esquecer propostas como as do darwinismo literário, que podem ter interesse como objeto reflexivo. Neste sentido, acho que o estudo do texto literário deve passar a fazer parte duma consideração mais ampla, entendendo-o como narrativa dum elemento duma comunidade sobre uma parcela do mundo. Os textos, como os contos, as leis, as cantigas ou os provérbios tradicionais, por exemplo, são formas comunitárias de narrar e de constituir comunidades, de transmitir ideias e visões do mundo; não apenas manifestações da comunidade mas, em muitas ocasiões, eles mesmos criadores de comunidades. A paisagem, como construto e referente, nos sentidos indicados na resposta anterior, abre um leque de possibilidades de trabalho relevante extraordinário. E facilita, também, o trânsito para uma consideração das possibilidades de investigação na cultura (entendida esta com o modo em que as pessoas e as comunidades estruturam, classificam e atuam no mundo, que julgo ser o futuro de Estudos como os hoje denominados Literários. Acho, por exemplo, que a reunião de ambientalistas, linguistas (sobretudo dedicados a Processamento de Linguagem Natural, e do âmbito léxico-semântico), informáticas, economistas pessoas de investigação nas comunidades e na sua cultura, e, ainda, de determinados estudos literários, pode ter um potencial e uma potência notáveis. Há que procurar esses espaços de encontro e de modo estável. A paisagem, o território, é fulcral para estas considerações.

 3. No domínio da política da língua, uma questão bastante polémica nas últimas décadas em Portugal, mas envolvendo outros países de língua oficial portuguesa, é o Acordo Ortográfico. Qual a sua opinião sobre este tema?

Ida Alves No Brasil, o Acordo Ortográfico não se tornou uma polêmica (respondo aqui com a grafia brasileira...). Houve é claro alguma discussão a respeito até para entender o que mudava em nosso padrão de escrita. As novas regras já estão sendo usadas desde 01 de janeiro de 2009, para ampla divulgação, com obrigatoriedade de uso somente a partir do ano passado, 2016. Deixamos de marcar o trema, o que os portugueses já não faziam desde a reforma dos anos 40, mudaram as regras de uso de hífen, perdemos alguns acentos diferenciais (o que, particularmente, desagradou-me bastante...) e outros detalhes de acentuação. Mas, para nós, ainda que o tema tenha lá sua importância e interesse, não é motivo de tanta discussão e mesmo resistência como ocorreu e ainda ocorre em Portugal. O fato de o Brasil atravessar, nos últimos anos, tantos problemas graves (na política, na economia, na educação) e muito mais impactantes para nossa vida cotidiana, individual e coletiva, talvez explique que a questão ortográfica não tenha tomado maior espaço em nossa agenda nacional.

Pessoalmente, em termos de política de língua, o importante é cada vez mais afirmar a língua portuguesa no mundo, com a divulgação de sua potencialidade cultural, artística, política, social e econômica. Ortografia é roupagem. O que nos interessa é a carne desse corpo linguístico múltiplo. O que nos importa é uma política cultural firme e inclusiva entre os países de língua portuguesa, permitindo o livre trânsito de edições, o intercâmbio de estudantes e docentes, os acordos culturais realmente produtivos e afirmativos da língua portuguesa no mundo. Um acento a mais ou a menos, uma letra a mais ou a menos, ainda que haja por trás disso uma história cultural, uma marca linguística, é muito pouco em relação à necessidade de impormos política e economicamente a presença da língua portuguesa, falada por cerca de 250 milhões de pessoas, em todas os órgãos e instâncias mundiais. Fora isso, os portugueses, os africanos de língua portuguesa e os brasileiros continuarão a falar com seu ritmo e seu imaginário, num encontro sempre admirável do diverso. Não dizem os especialistas dos versos camonianos que seu ritmo seria mais próximo da fala brasileira atual (e estou aqui neutralizando nossas diferenças sonoras regionais...) do que da portuguesa? Não encontramos no Nordeste brasileiro expressões várias da língua portuguesa medieval? É esse jogo de tempos, de formas, de sons e de imagens que importa defender e divulgar cada vez mais, em síntese: a nossa língua portuguesa múltipla e cada vez mais viva. Um acordo ortográfico é apenas uma uniformização prática. Não se trata de uniformizar modos de pensar e sentir em português.

 Elias J. Torres Feijó Eu sou a favor do Acordo, porque me interessa mais o acordo que o acordado. Não discutiria sobre as decisões tomadas; claro que algumas são discutíveis; bem sabemos! Há sempre escolhas arbitrárias que se vão impondo... Mas, em duas gerações, ninguém se vai lembrar de que pôde ser dum modo e não do outro. Melhor lembrar que ninguém, e nenhum país, é dono da língua (pensar o contrário é trabalhar para a quebra da unidade) e melhor investir os esforços numas boa política da língua, ad intra e ad extra da CPLP, de que carecemos.

Eu sou galego, falo e uso uma variante linguística que chamamos galego na Galiza, do que no mundo é conhecido como língua portuguesa. Nós, que desde os finais da Idade Média vivemos e tivemos o infortúnio duma língua profundamente castelhanizada (e lembrem que aqui nasceu na Galiza ou, se preferirem na magna Gallaecia, nasceu a nossa língua!) mas com a fortuna de que ainda a podemos reconhecer no quadro comum da língua portuguesa e de que os outros países de língua portuguesa a conservaram e conservam; e vemos o tão difícil que é a nossa recuperação linguística; e o quanto difícil é a defesa e prática da unidade linguística com a restante comunidade de utentes da língua portuguesa no mundo, pola perda de memória e normalidade que significou essa castelhanização e polos interesses criados por algumas elites, opino e proponho, desde a nossa situação, tão complicada, que não se invistam esforços em cousas menores e que se trabalhe pola unidade, sem questões importantes para algumas pessoas ou grupos, mas irrelevantes para o projeto comunitário e intercomunitário tão importante que é a língua portuguesa, a sua diversidade e unidade.